O PASSO
Passaram-se alguns anos
e não se apercebera de que
as atualizações da sua descrição na net
haviam se perdido entre o sexo que havia feito com o cara
de 22 anos, bco. c/o castanhos, 1.90m, 84kg, sarado, gato e discreto
e o momento em tocava agora em seu rosto - haviam
camadas de pele mole reclamando o tempo.
Mesmo que procurasse distanciar-se de ver sua imagem flácida,
ela sempre o acompanhava cada vez que teclava:
dedos lentos, nodosos e sulcos encravados entre ossos
que saltavam sobre aquela película fina esverdeada
(reflexo das veias, agora quase expostas)
que os encobria.
Necessitava então de jovens
pois, seu espelho não poderia ser ele mesmo.
Protelava a sua realidade
Talvez se sentisse melhor se,
na sua adolescência,
houvesse prestado mais atenção ao
moroso caminhar do senhor de idade no metrô.
enquanto ele,
em sua pressa por algo que misturava tempo e vida clichezada com carpe dien
(haviam até perfumes na época com esse nome)
não se apercebera o que deixava para trás:
o passo,
cada vez mais lento,
cada passo um peso,
gasto.
Possivelmente, se houvesse optado por ficar parado,
sem nem ao menos mover os dedos,
ou na ânsia de novas paixões,
menos respirações profundas,
não estaria tão cansado.
Mas também não pensava nisso,
pois, mesmo que não quisesse,
pressentia que seu corpo pararia em breve.
