O LIVRO CINZA
Difícil diagnosticar aquele seu andar mudo: cadarço desamarrado, saía do supermercado 24h com bolsas, um maço de Carlton, uma Coca-Cola 0 600ml na mão e um livro de Clarice na outra. Não era uma cena poética, por isso, abstinha-se das palavras organizadas em lirismo tendencioso. É que a vida era bruta como esta cena de produtos, movimentos, cordas, líquidos gaseificados e letras encardenadas.
Movimentos de pernas entrelaçadas, cuidava-se para não pisar em folhas secas à caminho de casa. Não que importasse com os barulhos – estalos secos de baratas pisadas às 2h00 da madrugada – não queria clichês de sons poéticos. Seres humanos não deveriam ser dignos de viver um poema. Mas as ruas se apiedam deles e concedem ao menos as perspectivas, seus faróis... quem puder e for míope, pode tirar os óculos e obter mais música de tudo isso.
Ainda não era ontem quando não pode subir ao seu apartamento. Ficou à espera no hall do prédio como se fora uma visita. À vontade de fumar mais um cigarro, voltou ao jardim e sentou-se. Esperou a palpabilidade de qualquer coisa tateável pois, não possuía qualquer texto ou imagem que contivesse o sentimento que, ainda hoje, depois de conseguir subir 17 andares e dormir e acordar, ainda não estava completo ou não havia iniciado. Ela teve medo de continuar. Talvez porque isso implicasse em viver e era muito mais fácil imitar sentimentos já executados. Então, movia-se como se fosse ontem
Ela não compreendia mas, talvez estivesse mais próxima da vida que antes.
Insistia em possuir um poema – escrever solucionava-a como uma cura: a vida feita em blocos estáticos de letras, quadros que podia pendurar, sentir, e manipular distante de si mesma.
Sobre o tempo que uma imagem – o prazo de validade desta - mais vale sua meia-vida à nossa incapacidade em armazená-las em nosso projeto, figurinhas empilháveis à busca de eternidade de impressões. Sentada e curva, procurava uma perspectiva diferente das pessoas que andavam. Recostou-se no banco com cansaço. Não, nem toda as imagens seriam dela. Talvez um vídeo e arquivos de imagens em movimento – não! Pipoca e dia chuvoso, dias depois, também não, tudo se apagava devido à sua incapacidade de posse. O ombro é maior que a projeção dos pés, o que talvez justifique o egocentrismo e menos a capacidade de caminhar. Mas no final, vistas muito de cima, as pessoas são somente um quadro de pontos finais. Não! Cansativos mesmo são os espaços pois, são inalcançáveis. O nojo da colecionadora por não possui imagens em palavras. Porque poemas são curta metragens, catarse de momento. Logo, tornava-se contra lirismos extensos. Talvez reflexo da volatilidade de seu amor às coisas que passam em alta velocidade em seu corpo tornando-se entulho. Se não possuía a palavra dura e seca para vomitar aqueles excessos que possuía em seus olhos, embrulhava-lhe o estomago e permanecia assim, estafada de si mesma, parada, de barriga estufada com o botão e zíper da calça abertos.
