domingo, agosto 03, 2008

Os espaços que não são

Comentário: Este poema surgiu à partir de uma reflexão sobre a música "A casa" de Vinicius de Moraes, Bardotti, Sérgio Endrigo e sobre um texto de Jaime Lerner, "Os sons as cores e o cheiro da rua". Na música temos um espaço nostágico à partir de uma brincadeira feita para crianças. No texto de Jaime Lerner observamos um estudo da arquitetura desenvolvida não à partir do concreto mas do cheiro da "fábrica de bolachas no bairro Cabral, em Curitiba. Cada dia da semana era produzido um tipo de bolacha. Quinta-feira por exemplo era dia de bolacha de coco, e a região sentia aquele cheiro gostoso". Aquela cidade era única não por causa dos predios, mas por causa do seus aromas. A casa de "Vinicius" não deixava de ser uma casa só porque não tinha paredes, tetos ou pinico. Os espaços existem além de seus bens materiais. Assim também, a nossa arquitetura interior.


OS ESPAÇOS QUE NÃO SÃO

Os espaços
cheios de casas engraçadas
nas quais ela entra sem abrir
e fica sem permanecer
pois voa para longe.
E quanto mais longe está,
mais alcança este lugar.
Abre as janelas para o cheiro entrar
e, ao longe,
vê as visitas se aproximarem:
É pai, mãe e vó
algumas vezes sepultados
outras em fio de vida.
Mas agora, tão presentes
quanto a distância que os liga.
Os amigos também se achegam
Com as gargalhadas daquele dia....
Este dia também, uma casa engraçada.

Os dias passantes formando cidades inteiras
E os sons, vias de acesso para colo de mãe (Tá tudo bem meu filho...)

Cidades sem guerra, sem fome, sem ausências -
saudade não é algo que falta mas a presença
de algo que demora em chegar.

Ela não não se finaliza com o final de si mesma.
Continua em seus amores que ficam
Ou naqueles que ainda possuem força
Para abrir a maçaneta da casa em que se pode tocar.